É indiscutível que o nome de Alfonso Cuarón virou grande referência coqueluche dos tempos atuais, quer acredite ou ache ele seja merecedor de tanta atenção ou não. Com uma filmografia curta, de apenas oito filmes, dentre eles alguns de maior destaque, como o mexicano E Sua Mãe Também, o terceiro e mais elogiado capítulo da saga Harry Potter, além dos adorados por boa parte da crítica, Filhos da Esperança e Gravidade, é de se admirar que o cineasta nascido na Cidade do México em tão pouco tempo, sem grande quantidade de material tenha conseguido chegar em um patamar tão alto. E, certamente, com Roma em exibição em sessão única na Mostra SP, e que está agendado para estrear na Netflix no final do ano, continua a ser um autor no nível da mais alta prateleira, merecidamente.

Roma, a obra semi-biográfica preto e branco baseada na infância de Cuarón que cresceu no bairro que dá nome ao filme na capital mexicana, foca a vida de uma família de classe média e a governanta da casa, Cleo, no início dos anos 70.

Já pontuando o fato de que o longa de Alfonso Cuarón não esconde a referência clara, vide o título, feita ao neorrealismo italiano, crucial movimento cultural no país ao final da Segunda Guerra Mundial, que revelou para o cinema, nomes capitais como Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti. Tal organização se caracterizou pelo uso de elementos reais em uma peça de ficção, buscando retratar a realidade social e econômica da época. Algo, que o longa de Cuarón não se intimida em emular.

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Todavia, apenas encapsular Roma do diretor mexicano como uma cópia ou imitação dos filmes pertencentes ao movimento é algo muito simplista, pois, o cineasta elevou seu trabalho narrativo, ao compreender com extrema sensibilidade a máxima que diz, que ação é personagem, e personagem é ação. Desta maneira, quanto mais próximos das ações diárias de Cleo, maior é o impacto emocional sentido durante todos os atos no roteiro, que felizmente, pouco deriva.

Mas, aonde o cineasta realmente surpreende e encanta é na posição de diretor de fotografia do longa, algo que realiza pela primeira vez na carreira, contudo, a anos-luz de parecer um principiante. Na realidade, muito pelo contrário, logo que as composições em seus planos, seja cenas internas ou externas, durante o dia ou a noite são dignas de deslumbramento. Mais ainda, os parcimoniosos movimentos de câmera, sejam panorâmicas ou travellings, harmonizam de maneira sublime com a protagonista da trama, dando corpo e alma a cada plano encenado.

Tamanha foi a percepção de Alfonso Cuarón manuseando a câmera, que bem próximos da resolução da história, logo após um momento catártico envolvendo Cleo, a vemos de volta a casa onde trabalha para a família, e o diretor mostra enorme delicadeza ao abordar o sentimento de torpor da personagem, simplesmente retirando os movimentos da câmera, expressando uma energia diferente para os cômodos daquele lar, como se tentasse estabelecer um minuto de silêncio naquele momento. Mais que uma prova de respeito, um exemplo de compaixão por parte do cineasta mexicano.

Óbvio, que é necessário mais do que apenas colocar a câmera no lugar certo para construir uma narrativa harmoniosa, assim, o outro elemento primordial que faz de Roma de Alfonso Cuarón uma obra distinta é a performance naturalista de Yalitza Aparicio, em seu primeiro trabalho como atriz, seja cinema, televisão, ou o que for. Nas ações, na interlocução, inclusive a dramaticidade, em tudo isso, Aparicio infundindo candura, move a narrativa sempre para frente, com a expectativa de qual será o rumo de sua personagem. E, em nenhum momento, tanto a atriz iniciante quanto o diretor deixam a personagem se acomodar, desbravando com a inocência de uma garota calejada fisicamente, mas de espírito verde.

Muito mais do que homenagear alguém importante em sua vida, Cuarón retrata, e ao final, eleva a força e a capacidade resiliente das mulheres que tem sua vida deformada pelo abandono masculino, isso inclui a personagem de Marina de Tavira, a matriarca da família.

Com Roma, produção original da Netflix, o autor mexicano oferece uma oportunidade de reconhecer o que geralmente é considerado à margem de todo o resto, e em seu último plano, demonstra o amor renovado destas mulheres incríveis.

Roma
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