Dentro do gênero romance, alguns filmes são calcados em conceitos específicos, formais e/ou narrativos, com a finalidade de oferecer algo novo. Todas as Canções de Amor, primeiro longa de ficção da diretora Joana Mariani, parte de uma ideia similar à de A Casa no Lago, ao ligar personagens de diferentes épocas através de um local em comum. A diferença, aqui, é que a música também tem um papel de destaque na narrativa.

Quando Chico (Bruno Gagliasso) e Ana (Marina Ruy Barbosa) se mudam para um apartamento no centro, encontram uma velho aparelho de som e uma fita cassete misteriosa, com a etiqueta “Todas as Canções de Amor” e uma dedicatória, “de Clarisse para Daniel” . Conforme escuta a mixtape, Ana, que é escritora, passa a especular sobre a história por trás de tal seleção, com a finalidade de produzir um livro acerca dela e entender suas próprias noções de amor.

A partir deste momento, somos apresentados à vida de Clarisse (Luiza Mariani) e Daniel (Júlio Andrade), o casal que viveu vinte anos antes no mesmo apartamento. Ao contrário de Chico e Ana, estes dois vivem uma relacionamento já deteriorado, que parece seguir rumo a uma separação. Ou não. Como diz a própria Ana, a mixtape que dá nome ao filme intriga justamente por ser tão contraditória – ora uma canção declama amor, ora expressa um sentimento de desgaste. Qual será o fim deles?

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Durante parte do filme, também persiste uma dúvida quanto à veracidade destas cenas no passado. Tem-se a impressão de que as interações do antigo casal são justamente especulações de Ana enquanto escreve e não remontam aos verdadeiros acontecimentos – ou, mais absurdo, que passado e presente passarão a interferir um no outro. Nada disso procede, e no fim a obra é beneficiada pela falta de reviravoltas ou elementos mais fantasiosos.

Todas as Canções de Amor, na realidade, é um filme que toma tempo para conquistar o espectador. De início, os diálogos escritos por Nina Crintz, Vera Egito e Roberto Vitorino tem uma coloquialidade não muito natural, assim como a química dos casais. Os personagens, juntos ou separados, também não possuem muita dimensão ou carisma, reforçando uma apatia. As canções de amor ainda parecem dizer o óbvio, próximas de cair numa cafonice intolerável.

Com o tempo, no entanto, o longa de Mariani se torna mais cativante por conta da maturidade da realizadora. Este pode ser seu primeiro longa-metragem de ficção após dois documentários, mas a condução de Mariani deixa a impressão de que se trata de uma cineasta muito mais experiente em dramaturgia – antes, dirigiu apenas dois curtas de ficção. Sem perder de vista seu conceito central, entrega um trabalho inspirado sem recorrer a afetações desnecessárias.

Pode-se achar, a princípio, que Mariani faz escolhas seguras, registrando suas cenas com uma câmera no tripé e fazendo uso de panorâmicas discretas, além de eventualmente executar closes para momentos mais íntimos. Mas assim que a história avança e as duas linhas temporais passam a rimar, a diretora tem soluções criativas para mesclar esses dois tempos, com olhar atento nos mínimos detalhes – a conversa paralela dos casais no restaurante é exemplar por isso.

A fotografia de Gustavo Habda, que opta pela razão de aspecto de 1.85:1, tem um papel nessa fineza, valorizando o espaço e criando uma atmosfera quase onírica para o filme, fazendo bom uso do céu alaranjado da tarde ou as luzes artificiais que se refletem nas janelas do apartamento em cenas noturnas. Habda ainda tem sucesso na missão de evocar intimidade nesses espaços e nas interações dos atores, além de provocar um sentimento de nostalgia – mérito também da direção de arte acertada, que deixa o apartamento com uma cara noventista nas cenas com Clarisse e Daniel.

O trabalho de montagem, executado por Letícia Giffoni, também é um ponto forte. Através de cortes precisos, o filme transita entre presente e passado com grande fluidez e naturalidade. Aliás, Giffoni entende muito bem o ritmo pedido por cada uma das cenas, pautadas em músicas com compassos diferentes, e a presença das canções permitem um exercício interessante de diegese que une naturalmente as duas épocas vistas no longa – a sequência ao som de “Menino Bonito”, de Rita Lee, é linda de doer por sua montagem e seu significado na narrativa.

Contando ainda com a direção musical de Maria Gadú, que aqui inclusive canta uma versão de Eu Sei que Vou te Amar presente na trilha sonora, Todas as Canções de Amor é um romance que não conquista por seu texto ou seus personagens – embora Júlio Andrade esteja especialmente bem -, mas pela inteligência e sensibilidade de sua realização, que faz uma bela soma de diversos recursos de linguagem e eventualmente alcança o coração. Após essa pequena joia, vale ficar atento aos futuros trabalhos de Joana Mariani e o resto de sua equipe.

Todas as Canções de Amor
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