“Essa é a década da pobreza cultural”, diz Skunk em uma das cenas de Legalize Já: Amizade Nunca Morre, que adapta a origem da banda Planet Hemp às telas de cinema. A frase é proferida como um tipo de chamado à luta direcionado ao parceiro Marcelo, que posteriormente ganhou a alcunha artística de D2, e define a importância que o trabalho da banda teve em meio a uma cena musical nacional que pouco contemplava vozes da periferia.

É o ano de 1993, e Marcelo (Renato Góes) e Skunk (Ícaro Silva) estão ferrados. O primeiro se sustenta vendendo camisetas de bandas na rua, prestes a ser expulso da casa do pai e com uma namorada grávida. O outro, por sua vez, pena para tirar suas músicas do papel e está gravemente doente, além de sofrer discriminação diária por ser negro. Há uma sensação de constante desamparo, e boas intenções não vão pagar as contas, bem como diz uma comerciante de rua: “tenho coração, mas tenho dívida pra pagar”.

Quando os caminhos dos dois se cruzam, quase que por um acaso, o horizonte se torna menos nebuloso e mais esperançoso. Skunk simpatiza instantaneamente com Marcelo, convidando-o para seu projeto musical em gestação. Apesar da relutância inicial do último, formam uma parceria promissora e escrevem suas músicas no porão de um bar, gerenciado pelo gentil argentino Brennand (Ernesto Alterio). Ainda que não exista perspectiva de retorno financeiro ou sucesso, Skunk acredita piamente que sua música será um “passaporte para a vida eterna”.

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No entanto, não se tratam de apenas músicas. Com pouco tempo de vida à sua frente, Skunk imagina manifestos contra toda forma de opressão e injustiça. Nesse caso, o título Legalize Já guarda um significado mais amplo: o rapper não fala apenas da maconha, mas de “legalizar tudo pra todo mundo”, incluindo melhores condições de vida e o contato com a cultura e a arte. Mais que uma cinebiografia recortada, o filme dos diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé é um tributo a Skunk, cuja vida chegou ao fim em 1994 mas cujas crenças sobrevivem através do Planet Hemp.

Com base em um argumento de Araújo e do próprio Marcelo D2, o roteiro de Felipe Braga refresca o modelo de cinebiografia por não se guiar através de acontecimentos, e sim pelas ideologias do Planet Hemp. Tudo o que sabemos de Skunk e Marcelo se reflete diretamente com sua produção artística, o que torna os comentários sociais ainda mais orgânicos e potentes. Não é um filme que simplesmente repete os valores da banda, mas que veste-os orgulhosamente como uma camiseta dos Dead Kennedys, item de extrema importância na narrativa.

Por mais que toque em temas sérios como racismo e aborto, Legalize Já tem um bom humor muito bem-vindo. O pulo entre Skunk anunciando a Marcelo que vão tocar em algum lugar para o show dos dois no Encontro de Jovens Evangélicos com Jesus rende altas gargalhadas. Outro momento envolve Marcelo horrorizado com um clipe de axé, exibido nos televisores de uma loja de eletroeletrônicos. Esses instantes ocasionais de humor surgem como lampejos bem-vindos de leveza em meio ao duro cotidiano dos dois músicos.

Araújo e Bonafé tem grande controle do ritmo de seu filme, que às vezes remete a um videoclipe oriundo da década passada – no bom sentido! A fotografia granulada e contrastada de Pedro Cardillo, tingida com um filtro quase monocromático, confere um aspecto quase impressionístico à visão que os diretores criam do Rio de Janeiro na década de 90. Diferente do que é habitual para cinebiografias, há uma beleza na união dessas imagens dessaturadas, com poucas cores que se sobressaem, à trilha composta por Marcelo D2, Lourenço Monteiro e Mauro Berman.

Nada disso funcionaria tão bem sem o entrosamento dos atores Ícaro Silva e Renato Góes, que representam a amizade do título com grande credibilidade. Através do olhar, Silva comunica bem a angústia interna de Skunk, que está com os dias contados, e Góes, apesar da pouca semelhança ao verdadeiro D2, é muito capaz na sua interpretação de um jovem que encara um turbilhão de responsabilidades. Os dois atores também cantam juntos em cena, e nisso também não deixaram a desejar.

Intercalando os últimos momentos de Skunk com as primeiras apresentações do Planet Hemp sem sua presença, Legalize Já: Amizade Nunca Morre se encerra com grande impacto dramático. É aí que se justifica o subtítulo, a princípio um tanto piegas. Confiando sua arte nas mãos de Marcelo, Skunk acabou realizando seu sonho: sua vida pode ter chegado a um fim precoce, mas sua arte, suas ideias e suas críticas foram eternizadas. Essa é a sensação que prevalece com o singelo plano final, que traz camisetas do Planet Hemp penduradas em um camelô.

Legalize Já: Amizade Nunca Morre
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