Longa foi a guerra entre Rick e Negan em The Walking Dead, que começou da maneira mais dramática possível com a morte de Glenn. Sim, os Salvadores já eram uma ameaça antes, mas o que vimos foram ensaios da guerra aberta que ocorreria a partir da estreia da 7ª temporada. A extensão desse conflito, inclusive, prejudicou a série consideravelmente, visto que caiu na repetitividade, com Negan sempre parecendo levar a melhor. Justamente por essa longevidade, parecia inevitável que o grande vilão – o maior da série até então – acabaria encontrando seu fim pelas mãos do xerife.

Mas não foi isso que aconteceu. A série se manteve fiel aos quadrinhos nesse sentido e Negan foi preso em Alexandria, ao invés de assassinado, o que deixou a mensagem bem clara de que Rick não seguiria pelo mesmo caminho do líder dos seguidores – embora estivesse bem perto do abismo, podendo se tornar uma criatura tão vil quanto ele. Aliás, não é a primeira vez que vimos Grimes chegar tão perto de abraçar completamente seu lado mais sombrio – afinal, como esquecer o clássico “isso não é mais uma democracia”, frase proferida ao término da segunda temporada. Ou quando o protagonista matou um bandido no dente para salvar Carl.

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A questão é que esse é um dos aspectos que melhor define toda essa jornada de Rick. Sempre que ele ameaça passar do ponto sem retorno, algo o puxa de volta, o fazendo voltar para aquele homem que conhecemos no primeiro episódio da série. Não são todos, no entanto, que são capazes de se controlar dessa forma e Maggie é uma que pode acabar se tornando vítima de sua própria ira, se transformando na próxima grande vilã da série.

A democracia em risco

Retornemos ao último episódio da oitava temporada, Wrath. Ao vencer Negan, Rick poupa a sua vida, o que leva Maggie a se descontrolar, clamando pela morte do líder dos Salvadores. Pouco após, já nos minutos finais do capítulo, vemos uma cena bem indicativa de que as coisas não estão tão boas entre a líder de Hilltop e o líder de Alexandria. Afinal, Maggie esperava um momento catártico, uma vingança pela traumática morte de Glenn (não esquecemos de você, Abraham, mas Glenn era o marido dela), que foi negada a ela. Um certo grau de indignação era de se esperar, mas nada como uma revolta, um golpe, ou conflito que vai além do verbal, entre ela e Rick.

No entanto, como qualquer explosão de ira, os ânimos foram controlados entre a oitava e nona temporadas, que trouxe uma elipse maior do que de costume na série. O novo foco é literal e metaforicamente criar pontes e não gerar mais derramamento de sangue – embora isso seja inevitável, considerando que há seres por aí querendo devorar todo mundo. Maggie se mantém, agora eleita, como líder de Hilltop, que faz parte de uma comunidade maior. Ela não concorda com Rick quanto a Negan e os Salvadores, mas ela já demonstrou piedade em relação a esse grupo antes e certamente parece estar mostrando agora, embora decida ficar longe de Alexandria em razão do você-sabe-quem que está preso lá.

Maggie chega a demonstrar sua infelicidade quanto a gastar recursos com os Salvadores – que precisam ser sustentados agora, ironicamente – mas sua proposta de que eles entreguem a mão de obra para construir a ponte não extrapola o bom senso. O que muito bem explicita um radicalismo maior de Maggie é a execução de Gregory, que não pode ser vista como a decisão certa em qualquer possível cenário onde a democracia exista – ainda que em estado bem rudimentar.

Considerando o cenário caótico de The Walking Dead, não irei entrar na questão sobre se a pena de morte deve existir ou não, o que opto por levantar aqui é a total ausência de opinião pública em relação a essa questão. Maggie decidiu por conta própria que Gregory deveria ser executado. Não houve debate, não houve qualquer mínima semelhança com um tribunal. Sequer foi perguntado se ele deveria morrer, ser preso, ou exilado. Ela simplesmente decidiu e pronto.

Sim, não é a primeira vez que Gregory trai o povo de Hilltop e Maggie e não há dúvidas sobre sua culpa. A questão aqui é que uma decisão unilateral pode facilmente descambar para o autoritarismo, uma ditadura. Com isso, Maggie invariavelmente começa a se aproximar do Governador (o caso de Negan era bem mais sério), que transmitia uma falsa sensação de segurança para o povo, enquanto que, por trás dos panos, barbaridades eram cometidas. Maggie chega a dizer que aquilo é uma exceção e que não quer fazer isso de novo – mas o primeiro passo foi dado e fica a pergunta: ela irá cumprir a sua palavra? Arriscaria dizer que sim.

Guerra civil

Com isso, não há como não comparar a atitude de Rick com Maggie. Ele foi capaz de deixar seu ódio para trás, enquanto que ela, ainda com sangue no rosto, deu continuidade à violência. A diferença ideológica é óbvia e coloca Maggie naquele estado de espírito no qual muitas vezes vimos o próprio xerife. Voltamos, portanto, à questão dela ser capaz de se afastar do abismo.

Essa disparidade entre os dois, naturalmente, coloca Alexandria e Hilltop à caminho de uma possível guerra civil – algo que cheguei a comentar na crítica do primeiro episódio, no qual vemos uma cena de Michonne contemplando uma pintura da Guerra Civil americana, durante o trecho do museu em Washington. O óbvio foreshadowing indica que caminhamos nessa direção e uma briga de Rick e Maggie parece ser o caminho natural a ser seguido – possivelmente um conflito que se escala a partir da sobrevivência de Negan, ou da própria decisão da líder de Hilltop no fim do episódio de estreia da nona temporada.

Outro ponto que nos leva a pensar nesse embate é o fato de que não apenas Andrew Lincoln (o Rick) irá sair da série, como a própria Lauren Cohan, intérprete da Maggie. Considerando a importância dos dois personagens e quanto tempo eles estão na série (Rick nem se fala e Maggie foi introduzida já na segunda temporada), um causar a morte do outro não seria de todo inimaginável. Não digo, necessariamente, através de uma briga até a morte, mas o desencadeamento de eventos que levarão ao fim de ambos. Afinal, que melhor adversário do que um velho amigo, que o acompanhou por anos?

Claro, trata-se apenas de uma teoria, mas se compararmos quem Maggie era, com sua versão atual e, mais importante, se levarmos em conta a figura de seu pai, Hershel, temos uma queda verdadeiramente trágica.

O pai de Maggie representava uma bondade que pouco vemos na série hoje em dia. Bom exemplo disso é o episódio da quarta temporada em que Hershel cuida dos enfermos na prisão. Há uma paz de espírito no personagem, ele transmite esperança, enquanto luta para tentar salvar todos os doentes dali. Essa falta de paz é o que vemos em sua filha, que claramente não se recuperou dos traumáticos eventos recentes. Nesse sentido, ela é a antítese do que Rick representa neste momento, do objetivo dele em criar a paz entre as comunidades, de criar um novo e melhor mundo, aquele com o qual Carl sonhava.

Certamente veremos um grande obstáculo no caminho desse sonho do xerife e seria um fim digno lutar pelo que acredita, em confronto com uma de suas amigas (ainda vivas) mais antigas. Não espero que Maggie fique além da redenção, mas suas atitudes contrárias às de Rick certamente entregariam um emocionante fim para os dois. Afinal, ela basicamente deixou claro que aquilo não é mais uma democracia e, considerando pelo que os dois passaram ao longo desses anos, não pode ser algo simples demais que irá ocasionar suas despedidas.

Quem sabe eles até perceberão o mal que a briga entre os dois causa e, no fim, podem acabar se afastando daqueles que amam a fim de protegê-los. Improvável, mas possível. Por enquanto, preferimos apostar que Maggie será a grande vilã dessa primeira metade da temporada de The Walking Dead.

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